O tempo

Estava frio e chovia. Talvez isso explicasse o trânsito mesmo que tarde da noite. Ela arrancava o esmalte da unha enquanto o táxi seguia lentamente. Ansiedade. Nos intervalos de dois em dois minutos das espiadas no celular, ela olhava o caminho, as luzes da cidade, as pessoas bebendo nos bares, rindo, se divertindo, tudo através da janela enfeitada com gotas de chuva. No pensamento, somente as lembranças de tudo o que foi vivido há pouco.

– Que loucura! Como foi intenso! Que saudade de tudo! – Pensava. O riso era involuntário e desacreditado de que ela havia mesmo vivido tudo aquilo, exatamente daquela forma. Ela não achava que era merecido. Não estava acostumada com a vida oferecendo coisas tão boas assim, quase que de mão beijada.

– Moça, pelo número que você me deu, acho que é aqui. – Disse o taxista, interrompendo os pensamentos.
– É aqui sim. Quanto deu?
– R$45,00.
– Aqui está. Obrigada e bom trabalho. Pode ficar com o troco pra tomar um café e se esquentar nessa noite gelada.
– Muito obrigado!

Ao entrar no local, ela sentiu uma coisa estranha, como se tivesse esquecido algo. Logo percebeu que realmente esqueceu: Tudo o que sentiu um dia. Parou no corredor por uns segundos, sem reação por não entender aquilo. Continuou, embora a vontade de voltar para casa fosse grande. Mas ela precisava levar aquilo adiante para comprovar o que por um breve segundo passou pela sua cabeça e, de repente, acabar logo com tudo.

O tempo…

Realmente, o olhar já não era mais o mesmo, a presença já não surtia mais o mesmo “efeito”, o coração não batia mais da mesma forma. A razão e o coração, pela primeira vez, estavam em seu devido lugar e tudo parecia estar em equilíbrio. É como se a sanidade tivesse sido retomada.

– O que é isso? Está ficando maluca? Onde você colocou a caixinha com todos os momentos, sentimentos e tudo mais? – falava em pensamento para si, imaginando-se sendo chacoalhada, numa tentativa de se fazer acordar, enquanto sorria um sorriso amarelo e fingia que estava ouvindo o que estavam lhe dizendo.

Mal sabia que isso era consequência de pequenas decisões e grandes mudanças. A página havia sido virada antes que se desse conta.

O tempo…

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