O que muda no dia a dia de uma família de criança não-binária? #diadavisibilidadetrans

Hoje é o Dia da Visibilidade Trans e resolvi falar um pouco sobre esse assunto. Não, não sou trans, mas sou mãe de uma criança não-binária e que ainda não está pronta para falar sobre sua experiência – quer dizer, sobre a experiência sim, mas não pra lidar com a exposição.

[Antes de tudo, Chico (ou Kiki, que é o apelido dele) é uma criança não-binária que usa o pronome masculino. Não importa se você olha pra ele e vê uma menina. Ele continua sendo ele e não ela. Combinadinho? Seguimos, então]

Muita gente me pergunta como foi essa descoberta e a resposta sempre é: normal.

Sabe, a vida inteira a gente vai descobrindo coisas sobre nós. Quando bebê descobrimos nosso corpo, descobrimos que não somos o outro, descobrimos nossas necessidades e desejos (tipo se a gente quer dormir ou brincar no cercadinho). Quando crianças a gente começa a descobrir quem a gente é enquanto indivíduo. E foi isso que aconteceu.

Chico começou a descobrir do que ele gostava, como queria se vestir, como se sentia em cada ocasião. E como ninguém nunca disse pra ele que o que quer que ele estivesse sentindo era errado, ele sentiu e compartilhou. Acho que aí tá a primeira diferença da criação que a maior parte de nós teve: nunca rolou julgamento. Ele dizia as coisas e a gente pedia pra ele explicar. Ele ia elaborando do jeitinho dele e a gente entendia o que ele estava dizendo.

Parece simples, né? Mas não é. E não é simples porque o mundo não deixa ser.

A gente lidou com muita cara feia, com agressão física e verbal, com família e desconhecidos. E a gente ainda lida. Mas nada disso é mais importante do que ele ter liberdade para se descobrir e se reconhecer.

Mas o que muda no dia a dia de uma família de criança não-binária?

Nada. Ele tem que tomar banho, tirar os nós do cabelo, escovar os dentes, comer legumes e dormir na hora certa. Tem lição de casa, hora de ir pra escola e precisa ser responsável pelo próprio material.

A diferença é que ele não se vê como menino ou menina. Ele se vê como ele, alguém que tá descobrindo coisas, limites, experimentando e construindo a personalidade.

A diferença é que todos os dias ele faz com que a gente queira saber mais, ler mais e estudar mais pra dar todo o apoio necessário pra ele ter uma vida confortável e segura. Mas talvez isso aconteça com a maior parte das famílias – ou deveria acontecer, pelo menos.

A diferença é que nesse dia eu preciso vir aqui contar pra cada um de vocês que Chico é só mais uma criança, que todas as crianças trans são apenas crianças. Elas precisam de amor, de carinho, educação, apoio e limites. Elas precisam saber que podem tentar e podem errar. Elas precisam saber que todos os lugares são pra elas. Elas precisam saber que merecem ser felizes.

A diferença mais dolorosa é, talvez, a que Chico é agredido apenas por existir e todas as famílias de crianças trans morrem de medo de que um dia ela não volte pra casa ou não queira mais sair de casa.

O preconceito é doloroso demais e tem desdobramentos trágicos. Se cada adulto educar as crianças ao redor para respeitar as diferenças, Chico e muitas outras crianças vão poder crescer e seguir tendo uma vida que não é tão diferente assim.

Toda criança é única. Por que, então, só algumas delas têm o direito de ter uma vida segura?

Carol Patrocínio é mãe de Chico e Lucca. Fala de maternidade sem gênero ou amarras; feminismo com amor; respeito e diversidade. Dá palestras, workshops, grava e escreve para diversos meios e é fundadora da Comum.vc, uma comunidade de acolhimento, troca e conexão de mulher para mulher.

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