Tudo é semente

Tudo o que vivemos habita em nosso subconsciente. Ele não apaga nada. Ele não esquece de nada. Todas as nossas vivências do passado – a começar pela infância que tivemos – moldam nossos comportamos, as decisões que tomamos e os padrões que estabelecemos para a nossa vida no presente e, com o tempo tudo vai sendo potencializando, para o bem ou para o mal e, claro, na maioria das vezes, sem termos a menor ideia de que estamos fazendo isso. 

Exemplo de algo que aconteceu comigo:

Fui uma criança que viveu mais com cuidadores do que com os pais, isso me colocou em situações bastante traumáticas. Quando estava com eles, eram raras as demonstrações de carinho; apanhava quando errava, “não fazia mais que minha obrigação” quando acertava e vivia em clima de tensão na maior parte do tempo, por ser um ambiente bastante hostil. Recebia um abraço ou outro agrado apenas em datas específicas e só ouvi um “eu te amo” quando adulta. Enfim.

Me sentia desamparada, desvalorizada, não amada, com medo, sozinha, entre outros diversos sentimentos e sensações e vários relacionamentos que tive com familiares, amigos e amores, ajudaram a potencializar tudo isso.

Me tornei uma pessoa fechada, dessas que só escutava o que diziam sem absorver, não demonstrava sentimentos com facilidade, esquiva, desconfiada e resistente a qualquer coisa que me diziam de bom, que não se sentia merecedora, capaz, interessante, bonita, vivia estressada, nervosa, me punia, achava que não podia contar com ninguém, não pedia ajuda, me viraria sozinha pois era o que me restava, etc. Vivi um período horrível de depressão, tive muitas crises de ansiedade, me olhava no espelho e não tinha a menor ideia de quem ou o que eu era, do que eu gostava, do que eu não gostava, o que sabia fazer, o que queria aprender, viver, etc.

A gente vive em uma sociedade que não nos ensina a ter responsabilidade, consciência e disponibilidade emocional e afetiva (ao educar, principalmente). Era de se esperar o número imenso de pessoas hoje em dia com doenças e transtornos psicoemocionais como depressão, ansiedade, distúrbios alimentares, de imagem, entre outros.  Muitas dessas condições geram problemas em todos os nossos relacionamentos e o foda é que a maioria de nós nem faz ideia disso, mesmo os mais esclarecidos.

Não nos ensinam a olhar para as situações por outros ângulos e muito menos para dentro de nós, para nos ajudar a entender os motivos do que a gente faz agora, de estarmos vivendo determinadas coisas e as razões de nos permitirmos – ou não – outras.

Aprendi – ao longo do tempo – que não adianta se encher de remédio, fazer toda meditação do mundo, ouvir milhões de conselhos, se a gente não se escuta, não se faz perguntas com foco em nós mesmos até não ter mais o que se perguntar ou responder, não paramos de apontar o dedo para os outros e nem nos olhamos no espelho. Todas as respostas para todas as nossas questões estão dentro de nós mesmos e quando não sabemos disso, não temos ideia de como acessa-las. Acredite: tudo tem explicação e só a gente sabe as respostas.

Muitas coisas que a gente vive – ou deixa de viver – é por nos permitirmos ou não (tem coisa que é proteção, mas a maioria não é) e isso depende muito de quem nos tornamos, a partir das experiências que tivemos lá atrás. Às vezes a gente se atreve a adivinhar acontecimentos e enxerga o outro de acordo com as nossas vivências do passado e não deixa a vida acontecer. Ou a gente permanece nisso, e sofre mais por tentar evitar sofrimento, ou a gente se trabalha para transformar o futuro em algo que nos fará bem, mais felizes, realizados e sem ideias fixas como, por exemplo:

  • Ninguém está nem aí para mim;
  • Não sou interessante;
  • Não tenho nada a oferecer;
  • Não faço nada direito;
  • Não estou com medo, estou me protegendo;
  • Eu mereço / sou culpado por tudo que está acontecendo comigo;

Quando me dei conta de tudo isso, minha vida deu uma bela de uma transformada. Eu me permiti ser cuidada, protegida, amada. Me tornei também uma pessoa que cuida, se preocupa, não mede esforços, se interessa, se compromete, confia (às vezes, até demais), ama, tenta exaustivamente, ouve muito mais do que fala, reflete, pede desculpas, tem pelo menos o mínimo de responsabilidade afetiva.

Aprendi a me sentir bem comigo mesma de diversas formas por ter reconhecido meu valor, focar no que me faz bem, estabelecer limites para mim, saber o que quero e o que não quero, a abrir mão.

Tem muita coisa que eu preciso melhorar, claro, todos nós temos. Busco isso todos os dias e tenho certeza de que, daqui uns anos, como hoje, vou olhar para trás e me orgulhar da pessoa que me tornei.

Se cabe aqui uma sugestão, eu diria para você começar a olhar a sua vida por outros ângulos. Olhar para dentro de você e se ouvir (literalmente, busque um psicólogo de preferência, que é quem saberá provocar as perguntas certas) a partir de hoje. Tem coisa que não dá para esperar, a gente perde muito. A vida passa num piscar de olhos e ninguém sabe se ela é mesmo única. 

Então, na dúvida, faça o melhor por você agora. Não havendo outra vida, você fez nessa. Se houver, você já chega lá muito mais evoluído.

Nunca se esqueça: tudo é semente e germina conforme você rega.

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